5.5.08

Essa tal liberdade

por Janaina Cortez

No dia 3 de maio comemoramos o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, mas será que nós jornalistas somos realmente livres?

Esse dia também é usado para recordar os milhares de jornalistas que perderam a vida em missão, em plena busca de informação, em busca da pura verdade.

Dois períodos históricos vieram-me à mente quando sentei para pensar um pouco sobre esta data e o que ela representa atualmente. O primeiro é mais remoto. Trata-se do Século das Luzes (século XVIII), na Europa e EUA.

O segundo é mais próximo, tanto no tempo, quanto no espaço. Falo das ditaduras militares da segunda metade do século XX, no Brasil

O efeito mais direto dos iluministas foi a inversão da ordem social estabelecida com os princípios herdados da era Medieval. Mas, um outro efeito, mais profundo e imperceptível, se processava nos porões do pensamento. Uma transformação radical alterava a posição que o ser humano ocupava dentro da natureza e da sociedade, foram instituídos os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade entre os povos.

“Posso discordar do que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.” Esta frase, de Voltaire, ilustra um grande anseio de liberdade de pensamento e de comunicação.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é fruto do Século das Luzes. Reza o artigo 19 desse documento: “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.”

Bem, quase dois séculos depois, na América Latina, “o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões” virou uma grande utopia. As informações eram violentamente censuradas pelo regime, por meio de torturas físicas e psicológicas, exílios, assassinatos e atentados, ou mesmo a cassação dos direitos políticos de centenas de jornalistas.

O caso mais expressivo talvez tenha sido o do jornalista Vladimir Herzog, enforcado em sua cela na sede do comando do II Exército, em São Paulo, no dia 25 de outubro de 1975.

Enquanto a classe média da sociedade brasileira assistia extasiada, pela TV em cores, ao jogo da final Brasil 4 X 1 Itália, da copa de 1970, no México, nos calabouços do regime existiam homens sendo mortos friamente.

Após o movimento das “Diretas Já” (1984), reinicia-se um processo de redemocratização política no Brasil. A partir de então, novos ares começaram a pairar sobre os meios de comunicação.

Mas, calma, as coisas não melhoraram da noite para o dia; e nem estão completamente sanadas. Acredito que produzir memória (crítica ou narrativa) é uma ação de responsabilidade social.

A “Liberdade de Imprensa” que eu, como jornalista, desejo, é uma construção cotidiana interminável e incansável. Acredito que a liberdade de imprensa é indissociável de responsabilidade social.

Nós, jornalistas do Blog Seu Brasil, fazemos nosso trabalho por que acreditamos (por mais difícil que seja) na possibilidade de construirmos um espaço de convivência social mais justo, menos violento, mais fraterno e mais igualitário.

Os espaços que reservamos para nossos leitores fazerem seus comentários é um lugar democrático, no qual depositamos o desejo de vermos discussões e debates que contribuam para a consolidação do regime democrático em nossa sociedade.

O jornalista não pode se limitar a informar sobre as mudanças ocorridas, mas deve ser também, ele próprio, um agente de mudança. Eu estou fazendo minha parte, e você?

Parabéns pelo Dia Mundial da Liberdade de Imprensa!

1.5.08

Ironias de um 1º de maio

por Ton Torres

Ironia. Gosto desta palavra. Gosto de quem é irônico. É saudável usar a ironia no trabalho. Jornalistas bem sucedidos e respeitados usam a ironia o tempo todo. Jornalistas fracassados e esquerdistas também usam a ironia o tempo todo. Ironias em um 1º de maio (sim, 1º de maio, e não 1 de maio) são ainda mais cômicas.

Na véspera do dia do trabalho (no qual o trabalhador não trabalha!) recebi minha edição de abril da Revista do Brasil. Não gosto da revista, mas a adotei para fins meramente de ironização. A capa: Mino Carta. É bom ver como a imprensa manipulada pelo governo reage contra a própria imprensa. É bom ver uma edição de abril, o “mês vermelho” da facção terrorista MST.

A entrevista teve o mesmo tom que qualquer outra: pau na Veja e na Folha e que a culpa de tudo de ruim que acontece no Brasil é da “zelite” branca. Sempre a “zelite”. Sempre a mesma “zelite”.

A revista é tão insignificante que a esqueci dentro do carro, no porta-luvas, local que certamente nunca mais iria lembrar que ali jaz uma revista. Acontece que no mesmo dia recebi um livro que havia emprestado meses atrás: Lula é minha anta, do cronista Diogo Mainardi. Meu livro de cabeceira. Perfeito. Mino Carta e Diogo Mainardi não se bicam. Mino Carta e Diogo Mainardi seriam meu próximo tema aqui no blog.

Mino Carta ataca a “zelite” branca. Diogo Mainardi faz parte da “zelite” branca. Mino ataca meios como a Folha e a Veja. Diogo faz parte de meios como a Folha e a Veja. Mino alinha-se a Lula. Lula é a anta de Diogo. Mino não suporta tecnologias, aversão que o obriga até os dias de hoje a redigir todos os textos em sua máquina Olivetti Linea 88. Mainardi desfruta de posts no site da Veja, podcasts semanais e, como todo jornalismo comum, usa computadores para produzir os textos. Mas já confessou que assim que foi apresentado à internet, algum tempo atrás, a ironizou, afirmando que já existia o fax, e que portanto aquela tecnologia logo ficaria obsoleta. Nem só a diferença reina entre os dois.

As semelhanças também fortalecem o elo entre Mainardi e Mino. Mino Carta não acredita no Brasil, acha que não temos chance. Diogo Mainardi já foi acusado de torcer contra o progresso da terra brasilis. E respondeu: “não preciso torcer contra o crescimento do Brasil. O Brasil não precisa disso. Ele se desfazerá sozinho”.

Assim como Paulo Henrique Amorim, que atacou o portal iG assim que foi demitido, Mino Carta hoje desrespeita a Folha, o Estadão, o Jornal da Tarde e a Veja. Mino trabalhou em alguns desses meios. Mino Carta fundou alguns desses meios. Para um jornalista, o que era ruim ontem deve obrigatoriamente continuar ruim hoje. Não ensinaram essa regrinha a Paulo Henrique e a Mino Carta. Mas eles são bons em ironizar. Ironizam tanto que continuam fazendo parte e sendo contra a “zelite” branca. Eu prefiro só fazer parte. Ironizar a “zelite”, deixa que os petistas façam isso.

25.4.08

Rumo à capital mundial da pirataria

Brasil está entre os dez maiores produtores de artigos falsificados no planeta. E esse número está aumentando.

por Ton Torres

“Copiar, reproduzir e distribuir CDs, DVDs, softwares ou qualquer outro tipo de produto sem a conscientização dos autores e a autorização das empresas é uma prática nociva e ilegal, que resultará no fim da cultural artística musical, literária, científica e tecnológica. Pirataria é crime”.

Segundo o sociólogo Diogo Maciel, essa era a definição básica de pirataria no Brasil há 10 anos, por volta de 1997, quando a falsificação de produtos pulou de 3% do total de itens vendidos para 59%, índices que colocaram o país entre os dez maiores produtores de pirataria no planeta.

Hoje, no Brasil, segundo dados da Associação Internacional da Indústria Discográfica, de cada dez CDs vendidos, pelo menos a metade é falsificada. Somente em 2005, os brasileiros fizeram mais de 1 bilhão de downloads de músicas de maneira ilícita.

“A maneira ilegal com que os usuários baixam as músicas não é literalmente ilegal”, afirma o sociólogo. “Não somos produtores de tecnologia nem de softwares que realizem esse serviço. Entretanto, somos consumidores de informação que não possuem R$ 30 para gastar em apenas um CD. O único jeito é recorrer à pirataria cultural”.

O boom da pirataria moderna se deve - em grande - parte aos novos desenvolvimentos tecnológicos que permitem a cópia e reprodução infinita de um determinado produto. As novas tecnologias permitem que até mesmo o usuário comum realize de maneira simples, em um micro legal com um software legal, cópias de CDs, por exemplo.

“Estamos em um estágio onde fazer pirataria é comum, barato e, principalmente, é caseiro”, diz Diogo.

Já para a economista Iracema Rodriguez, o boom da pirataria brasileira se deve ao parâmetro de globalização econômica versus desigualdade social que o capitalismo se encontra.

“A pirataria cultural de hoje é uma resposta de um desejo de não centralização de poder nas mãos de um número cada vez menor de pessoas. Vivemos em um mundo que consome o tempo todo informação e cultura. A pirataria é uma forma de dizer não ao apartheid econômico que se instalou, e que impede muitos de terem acesso a essas expressões culturais”.

Atualmente, estima-se que as falsificações gerem, por ano, uma cifra em torno de US$ 450 bilhões no mundo, o equivalente a 9% de todo o comércio mundial. Somente no Brasil, segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a pirataria, o valor estimado da perde de arrecadação de impostos chega a R$ 10 bilhões por ano.

22.4.08

As várias faces do caso Isabella

por Fábio Santos

O caso Isabella tem tudo para se tornar um dos mais emblemáticos assuntos abordados pela mídia no Brasil. Logo chegaremos ao primeiro mês de cobertura e a todo instante nos deparamos com novos fatos, novas versões e mais debates.

A cada momento o assunto muda de ângulo e a mídia explora cada vírgula com exaustão. A mídia tem como dever informar sobre o assunto e traduzir os dados técnicos para os consumidores de informação, porém, apenas algumas empresas jornalísticas tentam fazer isso, já que a maioria explora a imagem da pobre menina morta.

É impressionante como programas de meio de tarde conseguem ficar horas a fio debruçados sobre um único tema: o caso Isabella.

Esta massificação provoca reações insanas em pessoas que não têm muito o que fazer da vida e ficam acampadas em frente a casa dos indiciados, colando cartazes e hostilizando o casal. É claro que a situação causa comoção em todos nós, mas a possibilidade de um julgamento precoce é sempre perigosa e, mesmo que a culpa seja atribuída aos dois, devemos deixar a justiça se encarregar do assunto.

No último domingo, a Rede Globo exibiu uma entrevista exclusiva com o casal Nardoni. Algumas emissoras esbravejaram pelo fato da emissora carioca ter sido escolhida pela família, mas o motivo da entrevista ter sido dada para a Globo é óbvio. Apesar de jogar insinuações ao telespectador, a Rede Globo foi uma das poucas que não usou de extremo sensacionalismo sobre a morte da menina Isabella.

Sobre a entrevista em si, confesso que fiquei chocado com tamanha calma e com as palavras utilizadas pelos dois. Se o casal for inocente, ficarei horrorizado com tamanha incompetência da polícia, porém, se forem realmente os culpados, perderei um pouco mais da confiança na raça humana, tamanho o cinismo que presenciei ao assistir tal entrevista. Cinismo dos acusados, dos advogados e do pai de Alexandre Nardoni, um dos responsáveis pelas estratégias de defesa do casal.

Por tais conflitos, acredito que este caso ainda vai perdurar por um bom tempo na mídia e vai marcar sim a história do jornalismo brasileiro do Século XXI e da cobertura jornalística mais pura, baseada em investigação, furo de reportagem e excelentes contatos.

Claro, sensacionalismo barato também...

Entrevista: André Felipe Czarnobai

Palavras de Cardoso
por Beatriz Caetana

Essa semana o Ton disse que estava sentindo falta dos meus textos no blog. Eu até cheguei a enviar um, mas estava ruim e pessoal demais. Portanto (adoro essa palavra) resolvi postar algo que me deu muito orgulho e trabalho de fazer. Uma das primeiras entrevista que fiz para o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre Jornalismo Gonzo.

O entrevistado foi André Felipe Czarnobai, o “Cardoso”, o jornalista mais pesquisado quando o assunto é Jornalismo Gonzo ou Gonzo Journalism, é só escolher. Para vocês que podem nunca ter ouvido falar sobre o tema, vou dar um simples resumo.

Jornalismo Gonzo é um estilo jornalístico, onde o repórter é a informação principal. A reportagem é sempre escrita em primeira pessoa, tendo como enfoque o sentimento obtido ao longo da matéria pelo repórter. Esse estilo totalmente subjetivo e “osmótico” foi criado e divulgado pelo meu já morto, amigo americano e fã de armas Hunter Thompson.

Eis agora a entrevista, que teve como contexto o porquê desse estilo ser pouco divulgado no Brasil, principalmente no meio acadêmico.

Blog Seu Brasil: Desde quando você começou a estudar o Jornalismo Gonzo?

André Felipe Czarnobai: A verdade é que, desde muito cedo, pratiquei o Gonzojornalismo – mas sem saber que existia um nome para aquilo que eu fazia. Fui tomar conhecimento da sua existência por volta de 99, e passeia a estudá-lo de uma forma mais consistente a partir de 2000.

BSB: Houve alguma mudança de quando você começou a fazer sua pesquisa até os dia de hoje, no meio do Jornalismo Gonzo? Se houve alguma evolução nas pesquisas?

Czarnobai: Provavelmente, não. É um gênero muito difícil de ser definido (muito nem sequer acreditam que seja um gênero, de fato) e muito pouco estudado ou praticado na mídia em geral. Nos Estados Unidos e Europa ele é pouco mais praticado, mas quase nunca é classificado sob esse rótulo, o que torna ainda mais difícil o seu estudo. No mais, o número de referências de qualidade na web é escasso, e os poucos praticantes, em geral, apresentam uma produção de péssima qualidade – salvo raríssimas exceções, é lógico.

BSB: Você teve algum empecilho quando fazia sua pesquisa?

Czarnobai: Muitos! Não existe muito matéria sobre o tema na web ou em livros. Além do mais, o objetivo da minha monografia era demonstrar que o gonzjornalismo era um GÊNERO jornalístico que merecia diferenciação do NEW JOURNALISMO. Mas para fazer isso, eu não podia recorrer a uma bibliografia acadêmica sobre o gonzo, porque isso simplesmente não existia. Então tive que montar toda uma argumentação a partir da comparação entre o New Journalismo e a trajetória profissional (e pessoal, já que no gonzo essas duas idéias se mesclam) de Hunter S. Thompson, o pai do estilo. Não foi nada fácil e, quase quatro anos depois, pelo que escuto de outros estudantes que pretendem concluir seus cursos com trabalhos sobre o gonzo, parece que a situação continua igual.

BSB: Você acredita que há uma falta de interesse do estudante de Jornalismo sobre essa linguagem ou é da imprensa de não divulga-la?

Czarnobai: Acho que o principal problema a falta de TALENTO. O maior erro do meu trabalho, na verdade, foi não ter falado, de uma forma mais clara,que o grande lance por trás do gonzo jornalismo não é a captação participativa ou o uso da ironia, das técnicas ficcionais e da primeira pessoas na redação. É o TALENTO de quem pratica. Não dá pra exigir que TODO jornalista seja um bom GONZO JORNALISTA. A grande verdade é que só se faz gonzo jornalismo com um escritor extremamente talentoso e, sobretudo, CARISMÁTICO. Sem isso, nada de importante pode ser produzido. No mais o interessante dos estudantes e os espaços na mídia existem, sim. Mas, como eu disse, ainda falta TALENTO. E isso simplesmente não se pode ensinar.

BSB: Você acha que o gonzo é pouco divulgado no Brasil? Qual seria a principal razão?

Czarnobai: O ensino de jornalismo no Brasil é muito, muito ruim. Até dois ou três anos atrás, a esmagadora maioria dos professores e jornalistas em atividade não tinha a MENOR idéia do que é o gonzo jornalismo. E não estamos falando de uma novidade, de uma última tendência em termos de comunicação. Estamos falando de um estilo com pelo menos 40 anos de idade.

BSB: O gonzo é uma linguagem diferente e interessante, porque no meio acadêmico essa linguagem é pouco pesquisada? Pois você é uma das poucas referências no meio do Gonzo (acadêmico).

É pouco pesquisada porque é pouco conhecida. Mas houve um crescimento absurdo no número de trabalhos que abordam o gonzo jornalismo nos últimos cinco anos. Hoje em dia existem pelo menos umas 15 a 20 monografias sobre o tema apresentados como trabalhos de conclusão de curso em universidades brasileiras. O que eu sinto falta, entretanto, é de estudantes se aventurando por esse campo. Claro que isso contradiz um pouco aquilo que eu falei sobre o TALENTO necessário para saber se é capaz de fazer uma coisa se tu não tentar. Eu não vejo NINGUÈM tentar, e isso me deixa com ainda MENOS esperanças para o futuro do jornalismo brasileiro.

BSB: Será que a cultura que nós vivemos, de um jornalismo sem muito diferencial onde o lead é certinho, as reportagens (dependendo da editoria), não oferecem uma abertura de linguagem diferencial, aonde já existe um costume jornalístico por de trás das matérias. Talvez não seja esse o problema para a não utilização do jornalismo gonzo? Pela cultura jornalística em que vivemos?

Czarnobai: Sim, é claro que a cultura jornalística vigente tem um papel muito importante. Os problemas estão justamente no paradigma da objetividade jornalística e na resistência que se tem de aceitar textos em primeira pessoa como “jornalístico” por se dizer. Outro problema é o fato do Brasil não ser um país de leitores. Havendo poucos leitores, existe menos ainda leitores CRÌTICOS, capazes de realmente entender as sutilezas de um estilo como o gonzo, que se equilibra perigosamente na fronteira entre o jornalístico e o literário. De qualquer forma, nos últimos anos, no meio de todo o boom dos reality shows, o próprio jornalismo precisou aprender a se reinventar como entretenimento, e técnicas mais participativas de captação vêm sendo cada vez mais usadas. Curiosamente, hoje em dia è na televisão e cinema que vemos as aplicações mais notáveis da ideologia do gonzojornalismo.

OBS: “Ninguém queria pegar minha banca porque ninguém tinha a menor idéia do que eu tava falando”

No hospital também se ensina

por Marcos Cuba

Devido à uma parceria entre as Secretarias de Estado da Educação e Saúde, alunos da rede estadual de ensino terão aulas mesmo em uma cama de hospital. Trata-se do projeto Classes Hospitalares, que já está em funcionamento. Este ano o número de atendimento será ampliado, com a finalidade de quejovens em tratamento tenham a oportunidade de estudar.

O projeto abrange apenas quatro hospitais da capital, com uma média de atendimento de 1,5 mil estudantes entre 6 e 17 anos. Ao todo, são 21 professores capacitados para lecionar às crianças que lutam contra doençar como o câncer, anemia, renais, hepáticas, respiratórias, psiquiátricas, infecto-contagiosas, cardíacas e traumáticas.

O foco do projeto é fazer com que estes alunos não percam o vínculo com o ensino e prepara-los para a reintegração no ambiente escolar. A secretária do Estado da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, afirma que este é um trabalho importante, de continuidade à educação e de melhoria à saúde.

O interessante seria se este projeto ganhasse afluentes no interior, afinal aqui também têm muitos alunos que acabam se acidentando e ficando internados, alguns ficam impossibilitados de freqüentar a escola, assim como na capital. É louvável a iniciativa, já que a educação de nosso país está cada vez mais capenga.

21.4.08

Entrevista: Wilson da Costa Bueno

O Gestor da Informação
por Polyana Gonzaga


Para o jornalista e professor de comunicação social Wilson da Costa Bueno, o profissional de comunicação atuante dentro das organizações começa a adquirir um novo perfil, o de gestor da informação.


Segundo Bueno, na era da informação o profissional de comunicação organizacional deve ter novos atributos. “ O assessor de imprensa deve ter conhecimento de aspectos discutidos na sociedade e a empresa precisa ter um posicionamento sobre vários assuntos.”


Wilson da Costa Bueno é jornalista e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e da Escola de Comunicação e Artes da USP, autor de vários livros na área de comunicação empresarial, entre outros. Atua há mais de vinte anos como assessor e consultor de empresas em Comunicação Empresarial.


Para Bueno, a figura do assessor de imprensa deve assumir novas posturas e descreve o perfil deste profissional e das perspectivas da área em uma sociedade impulsionada pelas novas tecnologias.

Blog Seu Brasil: O que muda dentro da empresa com as novas tecnologias ou com a falta dela? Qual o papel do assessor diante disso?

Wilson da Costa Bueno: Na verdade as organizações não estão ainda equipadas para essa realidade nova. Ainda estão muito lentas, muito pouco organizadas. Não é razoável que se tenha a possibilidade de organizar todas as informações e as organizações ainda não tenham preparado isso. É uma questão de cultura, de planejamento, de definições de prioridades. Pois a imprensa explora essas divergências e é preciso estar com as informações gerenciadas.

BSB: Hoje o assessor de imprensa também é chamado de gestor da informação. Que atributos deve ter este novo profissional?

Bueno: Primeiramente o assessor de imprensa precisa saber que as informações precisam ser organizadas, ele deve saber como organizar essas informações, tem que ter recurso para isso. Em uma organização como as informações não dependem somente do profissional de comunicação deveria existir um esforço para isso levando em conta quais aquelas que podem se tornar públicas ou não. Para que informação que interessa apenas a organização acabe vazando para a mídia. As empresas estão preocupadas com isso, porém elas não têm uma política de segurança de informação.

Hoje temos instrumentos para organizar a informação. É necessário ter conhecimento de aspectos discutidos na sociedade e a empresa precisa ter um posicionamento sobre vários assuntos, para que quando consultada tenha como responder com cautela e agilidade. A imprensa cobra isto e falta discutir isto dentro da corporação. Papel ocupado pelo assessor de imprensa. Isso exige organização de dados, informações, manter a coerência entre a direção da corporação durante uma possível consulta da imprensa. Na maioria das corporações ainda não existe uma cultura de organização dessas informações. O assessor de imprensa precisa ser informado sobre as ações da organização, seus planos, suas metas para que possa organizar a sua estratégia.

BSB: O perfil do assessor de imprensa mudou nas últimas décadas?

Bueno: Sim. As coisas estão caminhando para possíveis mudanças. Mas está um pouco mais lento do que deveria. O mercado cobra isso. O assessor continua fazendo um monte de tarefas e não consegue tempo para planejar. As pessoas têm pouco tempo para gerenciar a informação. Reconhecer que é importante e que a comunicação é estratégica. Mas isso ainda não tem acontecido. Hoje em dia é mais fácil liberar uma verba para um trabalho publicitário do que para organizar a imprensa.

BSB: Os empresários já reconhecem a comunicação como estratégica e vital dentro das organizações. Como o jornalista deve lidar com isso?

Bueno: É necessário ter uma cultura, uma estrutura e uma equipe para lidar com isso. É necessário se conhecer os públicos, se o assessor de imprensa conhece melhor o acionista, o cliente, o consumidor, a sociedade, evidentemente o seu contato com eles será melhor. Uma falha pode prejudicar os negócios, os objetivos que se querem atingir. Portanto não podem ser tratados com leviandade. Devem ser feitas mais profissionalmente e então se exige uma cultura nova, um novo posicionamento, um investimento, o perfil do profissional tem que mudar. Tem que ser uma pessoa capaz de gerenciamento.

É fundamental, por exemplo, que o assessor de imprensa leia jornal e saiba ler um jornal diferentemente do leitor comum, que ele esteja antenado no que acontece no mundo, principalmente no âmbito onde a organização que assessora é atuante.

Precisa entender o mercado, as oportunidades e precisa ter tempo para isso. Precisa ter uma percepção de mercado. Ele tem que ter tempo para isso, tem que ter capacitação para isso.

É necessário entender a imprensa, os tipos de imprensa, o jornalismo on-line, a televisão, o rádio, perceber que o jornal tem identidade própria. É necessário conhecer o jornalista, saber qual o posicionamento dele diante de algumas questões. Pois o fato de não conhecer o perfil do jornalista pode gerar uma informação contrária.

Se o assessor de imprensa não tem este tipo de inteligência estratégica vai sempre continuar fazendo um trabalho medíocre em um mundo mais complexo do que era antes.

BSB: Hoje existe uma necessidade dessa inteligência estratégica?

Bueno: Sim. Existe uma necessidade brutal disso. Isso significa que é preciso mudar a estrutura da área de comunicação. Saber realmente quais são os recursos disponíveis, organizar banco de dados, temos que ter essa inteligência de gerenciamento que já sabemos que se faz necessária. Porém não estamos formando gente para isso. Contratam assessores de imprensa que tem bons relacionamentos. O que não é ruim. O problema é que isso é pouco. Pois os relacionamentos vão embora e você não consegue ter bons relacionamentos em todo lugar.

Isso é muito pouco, pois é uma relação que a própria imprensa acaba rejeitando. Os relacionamentos têm que ser cada vez mais profissionais. E algumas organizações ainda acreditam apenas em bons relacionamentos. O que se deve destacar é que a organização não tem o controle da informação e nem nunca vai ter.

As mudanças foram muito aceleradas e algumas organizações não se deram conta disso ainda. O assessor de imprensa só pode tentar gerenciar melhor as informações se realmente fizer um trabalho transparente. Se o assessor circula apenas informação que interessa para ele e a organização pode perder o controle e a imprensa fazer leituras equivocadas. Não sabendo como agir em um possível acidente, alguém pode assumir isso na frente e não espelhar o que a organização realmente necessita.

* Wilson da Costa Bueno é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP, jornalista, tem mestrado e doutorado em Comunicação (USP) e especialização em Comunicação Rural e em Jornalismo Científico. As áreas principais de atuação são: Comunicação Empresarial, com foco específico em Auditoria de imagem das organizações e Jornalismo Especializado (Jornalismo Científico, Ambiental , em Saúde e em Agribusiness).

18.4.08

O tupiniquim também é um idioma requisitado

por Anne Rodriguez
Correspondente Internacional
Santiago de Querétaro, México

Vim para estudar espanhol. Assumi o papel de professora particular de português para estrangeiros. A vida é mesmo cheia de surpresas! Nunca pensei em me aventurar na arte de dar aulas, nunca. E muito menos de português, e para gringos! Mas, como não resisto a um bom desafio, topei mais essa e cá estou no México, como professora particular de português. E também, aluna de espanhol – o objetivo inicial.


Dar aulas é realmente uma arte. Ao “tentar” preparar a aula do dia, me recordo dos meus professores preferidos e busco a inspiração neles para definir a melhor didática para atrair o meu aluno. Aí, eu vejo o quanto preciso de criatividade, boa vontade e dedicação. Como eu gostaria de ter respeitado mais os meus professores e não ter conversado tanto nas aulas e ter me dedicado mais a todos os exercícios que eles propunham…

Eu tinha medo de dar aulas. O motivo exato? Eu não sei. Por isso, a experiência como “professora” de português é um desafio e um aprendizado mútuo. Me surpreendo ao reconhecer que há pessoas dispostas a aprender o português aqui no México, em um contexto em que os idiomas mais exigidos são o inglês, o espanhol e o francês. Fico contente, ao mesmo tempo, em descobrir que há mexicanos que se dispõe a aprender a minha língua nativa. E, o mais interessante, é perceber que muitos deles acham o idioma “bonito”.

A situação contribuiu para eu refletir sobre diversos aspectos. Incluindo o - talvez - inexistente respeito que os brasileiros têm com o nosso idioma. Observa-se os inúmeros neologismos derivados de outras línguas, onde se destaca o inglês, que foram incorporados ao nosso vocabulário tupiniquim. Claro que a globalização colabora para a adoção desses estrangeirismos no dia-a-dia do país. Porém, há o fato de várias palavras, nomes e expressões serem incorporadas pelos brasileiros com a equivocada idéia de serem mais fashions ou cools.

Dentre as opiniões contra e a favor dos estrangeirismos, destaco a observação de Ernani Porto, “por trás da importação de palavras, há também um mecanismo de exclusão social, o analfabeto em inglês que, aliás, é a grande maioria dos brasileiros”. E se não bastasse o analfabeto em inglês, há a notória existência dos analfabetos do próprio português.

Ao tentar explicar a maneira correta de falar o português brasileiro, noto também o quanto a linguagem coloquial nos vicia a usar tão mal o nosso idioma, adotando um vocabulário limitado e pobre no dia-a-dia. A língua oficial de um país é o seu maior patrimônio histórico e cultural. Mas, infelizmente, para muitos brasileiros, o tupiniquim é apenas uma ferramenta de comunicação viável e necessária.

17.4.08

Eduardo Suplicy: unânime

por Hugo Luz

Eduardo Matarazzo Suplicy é um homem diferenciado. Já o vi recitando Racionais em um discurso no Senado Federal, já o vi passar o Dia dos Pais junto com o Supla e a turma do Pânico, já o vi indo ao Iraque em plena guerra, mesmo com todas as recomendações de que não fosse, já o vi apoiando a oposição contra o governo e até mesmo insistindo em disputar as prévias com Lula, para ver quem seria o candidato do PT à Presidência, em 2003. Esse ano não vi, mas fiquei sabendo que nosso Senador desfilou no Carnaval de São Paulo pela Vai-Vai. Mais uma faceta de Suplicy. Será?

O Samba Enredo da Vai-Vai, Acorda Brasil, falou de “com união, vencer a corrupção, passar a limpo este país”. No desfile estiveram pessoas como o maestro Silvio Baccarelli, Mano Brown, os Racionais, o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, Marcos Frota, entre outros. E entre eles, Suplicy.


Por ser Senador, ele só poderia participar do desfile “desde que houvesse anuência de toda a escola”, e ao que parece, houve. A Vai-Vai sagrou-se campeã do Carnaval 2008, mas isso é o que menos me importa. O que chama minha atenção é um homem de mais de 70 anos, vindo de uma classe aristocrática, dono de umas das maiores fortunas do país, ser praticamente uma unanimidade. Já vi tucanos e pemedebistas, seres avessos à política e anti-petistas, dizerem: No Suplicy, eu voto. Sinônimo de ética e honestidade, Eduardo consegue até mesmo deixar o Supla mais simpático.


Não duvido das coisas boas que a Marta tenha feito pela cidade de São Paulo, mas é inegável que sua vida política tem duas partes distintas. Antes e pós separação. Antes, ela era a mulher do Suplicy, uma pessoa que devia ser respeitada somente pelo fato de ter sido a escolhida do Senador. A mãe de seus filhos. Depois, passou a ser a mulher que trai Suplicy com o argentino, e isso pesou significamente em sua vida. Creio que ela deva agradecer todos os dias por este fato não ter enterrado sua carreira. E isso se deve, em parte, ao fato de que Suplicy manteve-se ao lado da ex-mulher, pelo menos politicamente, talvez em nome do partido.


Mas o fato é que cada vez mais considero Eduardo Matarazzo Suplicy um homem a se espelhar. Uma pessoa que, assim como muitos, sofreu, pagou, sofre e paga o preço de ser honesto num mundo onde a desonestidade e a ganância ganham (quase) sempre. Um homem que deve ter sido motivo de piada e de armações, por simplesmente, honrar o compromisso assumido com o povo, e só com ele. Um homem como poucos, que agrada estudiosos de Harvard e Sourbone, e consegue ser unanimidade em uma escola de samba. Que Suplicy agüente mais muitos e muitos anos nessa luta, e que surjam mais alguns dele.


Eu sou guerreiro de fé

Meu samba é no pé,

sou Vai-Vai

Sou brasileiro e tenho meu valor

Desperta gigante, é novo amanhecer

A levada do meu samba, vai te enlouquecer

(Meu Brasil)

Alô Brasil, o nosso povo quer mais Educação pra ser feliz!

Com união, vencer a corrupção

Passar a limpo este país!

Vamos gritar aos quatro cantos desta pátria mãe gentil

Pra sempre vou te amar, \\ ACORDA BRASIL\\ \ "

16.4.08

Só o PT pode destruir o PT

por Ton Torres

A Veja ironiza e estampa em sua capa um possível Lula eterno, infinito, vitalício. O vice-presidente, José Alencar, diz que quem irá pedir o terceiro mandato de Lula não será o PT, mas sim o clamor popular. Lula é o super-herói da popularidade, é o Batman dos índices eleitorais. Lula é igual ao Batman em tudo: só faz manobras no escuro e vive com uma máscara, para que ninguém saiba seu verdadeiro lado.

O PT perdeu, um a um, todos os sucessores de Lula. Não há mais presidenciáveis no partido da ética, não há mais substitutos para o presidente do Bolsa-família, para o presidente do “nunca antes nesse país”. Lula I acabou no mensalão. Lula II vai acabar nos cartões corporativos e no escândalo do dossiegate. Vamos torcer para que a enorme classe dominante do país, retrata brilhantemente por Reinando Azevedo como a “burguesia do capital alheio” não nos imponha um Lula III e um Lula IV.

Terceiro mandato é crime. Burlar a constituição e criar manobras para uma nova presidência é voltar aos tempos de ditadura. Mais um mandato de Lula é agravar a doença em que o país está afundado. Lula não é Chávez. Lula não é Fidel. O Brasil não é a Venezuela. O Brasil não é Cuba.

Lula sempre que questionado sobre o assunto infla o peito e afirma que não há assunto de terceiro mandato. O presidente diz também que irá romper com o PT caso insistam em uma nova presidência. Lula mentiu. Lula mentiu de novo. Lula não passa de um mentiroso barato.

Na marcha dos prefeitos, evento que contou pela primeira vez com o apoio direto de um presidente da República, os prefeitos petistas clamaram por um terceiro mandato. A resposta veio rápida, a Executiva Nacional do PT proibiu que filiados do partido façam manifestações com esse propósito. Em uma declaração de 13 linhas, a cúpula petista se diz contrária a mudanças nas regras do jogo. Afirma que acredita ser errado beneficiar um governante com “manobras antidemocráticas”, um referência ao segundo mandado de Fernando Henrique Cardoso.

Então por que se fala tanto em terceiro mandato? Lula tem apoio de 60% dos brasileiros. Lula facilmente transmitiria esse apoio ao seu sucessor. Acontece que Lula está sozinho. Todos os homens fortes do PT caíram com escândalos de corrupção. Salvo um integrante petista, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Dilma vinha sido apresentada como a “mãe do PAC”, a mulher que permitiu todo o funcionamento da maior esperança petista. Em um cochilo da base aliada, a oposição convocou a ministra para dar explicações sobre o PAC. Como todos sabem, o PAC não funciona, não funcionou nunca. A oposição encontrou aí um grande ponto para atazanar a vida dos petistas.

Acontece que a ministra Dilma também foi convocada para esclarecer o caso do dossiê envolvendo dados sigilosos do ex-presidente Fernando Henrique. Os dados nem são grande coisa, mas o ato de vazamento de informações é crime. Lula se posicionou a frente para defender Dilma, dizendo que as informações pertencem a um banco de dados do governo. A linguagem não é apropriada para um banco de dados oficial. Dilma pode cair. Dilma pode ser mais um integrante petista morto. Lula não pode mais apostar em Dilma. Lula vai apostar em quem? Os petistas apostam em Lula. O PT tem medo de Lula. Agora, só o PT pode destruir o PT.

A mídia, Isabella e a corrupção

por Jorge Nicoli*
Participação Especial

Talvez dentro de alguns dias o caso da menina Isabella já esteja esclarecido como, quem sabe, se não ele estará longe dos noticiários, sim porque tudo estará esgotado, inclusive a nossa paciência.
O fato é que a mídia nunca esteve interessada em solucionar o tal crime, seus olhos estavam – como sempre – voltados para os institutos de pesquisa. Uma briga pela audiência, pura e simples.

À mídia interessa tão somente a audiência e nada mais comovente que o assassinato de uma bela garotinha de classe média para comover os milhões de espectadores e de
leitores, afinal Isabella tinha um grande futuro. Bem nascida, bem nutrida, seguramente seria uma mulher de destaque no país. A mídia sabe que os miseráveis deste mesmo país adoram se comover com os dramas dos bem nascidos, ignorando os dramas das crianças das periferias que morrem de “morte morrida” e muito mais de “morte matada”. Para não esquecer, o Brasil é um dos recordistas em assassinatos de crianças e de adolescentes, sendo que a maioria absoluta de negros e de pobres.

É claro que a grande mídia não vai se preocupar com isso, afinal pobre nunca deu audiência. Se bem que na mídia tudo é muito rasteiro e superficial, não há contextualização da notícia, os fatos e os personagens surgem e desaparecem como se fossem de um planeta distante. Não existem antecedentes tampouco história. O MST é um bando de invasores de terras produtivas, o PCC é um grupo de presidiários que promove rebeliões e chacinas, os traficantes de drogas são apenas uns caras que tentam destruir a família brasileira, os seqüestradores são criminosos hediondos e o adolescente transgressor é tão somente um marginal.

Da mesma forma que se decidiu que a corrupção é uma moeda de um lado só, pois existe o corruptor mas não o corrompido, isto é alguém compra sem que o outro seja comprado. Só se tem procura quando há oferta, lei do mercado. Enfim, para a mídia a audiência é o desiderato, tanto que as denúncias têm prazo de validade.

Enfim, nada é muito consistente nos atuais noticiários, embora se tenha a impressão – em alguns casos – que há uma profundidade na análise e na cobertura. O que conta de verdade é são os números, nos institutos e na conta bancária.


*Jorge Nicoli
Ator, poeta, resistente cultural, corinthiano roxo e avô do Gabriel e do Leonardo

11.4.08

Inutilidade procriada

por Marcos Cuba

Meu Deus do céu! Só pelo amor do Divino!

É assim mesmo minha gente, não estão lendo nada errado, está corretíssimo o que vocês leram. Estou espantado com a Rede Globo de Televisão. Quando comecei a cursar jornalismo, tinha a idéia de um dia trabalhar nesta emissora renomada, porém com o passar do tempo estou ficando desanimado com tal canal.

Cadê a qualidade que tanto se fala, inclusive numa propaganda que está circulando? Onde está o tal “Q” de qualidade? Nota dez para alguns quadros de humor que foram criados, para o novo formato do Fantástico, que agora pode ser chamado de “Fantástico”, entre alguns outros fatores, porém é necessário pensar antes de ligar a televisão e sintonizar a Rede Globo.

O BBB8, para mim, seria algo que começou, teve o seu meio e fim, só que para o meu espanto algumas “pragas” deste programa, que nada acrescentam na vida de nós brasileiros, estão perpetuando.

Admiro alguns que saíram deste reality e foram estudar para serem atrizes, caso de Grazzi Massafera, entre outras, mas agora ter um quadro num programa com três ex-BBB para aumentar o Ibope, já foi longe de mais.

Fiquei pasmo ao acessar a internet e ver que a idiotice de “Rádio Pinel”, criada por alguns “idiotas”, pois não possuem e nem mostraram conteúdo intelectual no programa, virou quadro do matinal Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga.

Minha gente, onde vamos parar? Agora parece que os três patetas se deram a jornalistas, porque estão fazendo entrevistas com artistas. Francamente. Estudamos quatro anos, fazemos o bendito TCC (trabalho de conclusão de curso) e agora ficar sabendo de uma notícia dessas, é para ficar chocado. A Rede Globo, ou melhor, a sociedade, já pagou muito para estes rapazes que não tem nada para oferecer. Isto mostra a procriação das inutilidades.

10.4.08

O idoso em diferentes contextos culturais

Em algumas culturas eles são respeitados e chamados de sábios. Em outras, conseguem conquistar um acanhado direito de continuar a trabalhar. Mas, ainda em muitos contextos, são considerados inativos e desocupados.

por Anne Rodriguez
Correspondente Internacional
Santiago de Querétaro, México

Uma cena rara - na minha cultura - despertou minha atenção por duas vezes nesta semana aqui no México: idosos trabalhando no comércio. Sim, idosos. Deviam ter mais de 60 anos. Meu primeiro sentimento foi de pena, em ver aqueles “velhinhos” ainda trabalhando, em vez de estarem em casa fazendo “nada”. E pensei: “eles deveriam estar descansando, pois já trabalharam tanto durante a vida…” Mas depois, refleti um pouco mais diante daquela cena, e me lembrei o quanto essa população tem sofrido com pessoas que alimentam pensamentos parecidos com o que tive no primeiro momento.

Será que o idoso deve realmente se limitar a ficar em casa? Será que quando se completa 60 anos, dali para frente a única expectativa é a de esperar a morte chegar? Será que ao conquistar a aposentadoria, o idoso também assina o atestado de que já não serve mais para trabalhar formalmente outra vez? Será que a partir dos 60 anos, as únicas ocupações disponíveis são as de avô caduco, pai doente ou de velho chato?

Lembrei-me do meu avô paterno. O “vô João”, hoje com 73 anos, mantém a mesma vontade de viver de 50 anos atrás. Porém, diante da sociedade brasileira moderna, ele já não serve mais para muita coisa. E sem perspectivas de continuar exercendo diversas atividades diárias, ele se limita a fica em casa, tocar sua gaita de vez em quando, e contar as infinitas histórias do passado nos almoços de domingo em família. Uma condição que já rendeu ao meu avô um início de depressão.

No Brasil, os idosos formam 8,6% da população total do país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com base no Censo 2000. Aqui, cerca de 5% dos mexicanos são de pessoas com mais de 60 anos, de acordo com os últimos dados do CONAPO (sigla em espanhol para Conselho Nacional da População). Para a ONU (Organização das Nações Unidas), a estimativa é de que em 2050 o número de idosos em todo mundo alcance 2 bilhões, ou seja, 22% da população mundial.

Diversos fatores influenciaram e continuarão a determinar o aumento do número de idosos, como por exemplo, os avanços da medicina. No entanto, o que não tem acompanhado esses números é a atenção da sociedade para esta parcela da população.

Não possuo dados oficiais que comprovem que o México trata melhor os seus idosos do que o Brasil, ao adotar medidas como contratar idosos para trabalhar no comércio. Porém, constatar que isso é possível por aqui, já me fez admirar um pouco mais essa nação. Os cargos que eles ocupam são de empacotador de supermercado e loja. Uma função que no Brasil é ocupada, na maior parte, por jovens. E assim como os jovens, os idosos que encontrei transmitem a mesma vontade de viver.

9.4.08

Um sábado de Rock'n Roll

por Fábio Santos

No último sábado, dia 5 de abril, compareci ao Estádio do Palestra Itália para assistir ao show do lendário Ozzy Osbourne, um ícone do Heavy Metal e do puro e simples Rock'n Roll.

Para falar a verdade, decidi ir ao show apenas no dia, pois as últimas notícias do cantor davam conta de que a carreira dele estava quase no fim, por causa dos prolongados anos de uso de drogas. No entanto, ao ver a repercussão do show no Rio de Janeiro, dia 03, fiquei instigado a ver como o antigo líder do Black Sabbath se comportaria no palco e, de fato, não me arrependi da escolha.

Ao chegar ao Paque Antártica ainda encontrei ingressos. Consegui um bom lugar na pista, no meio dos fãs. Naquela noite, além da apresentação do Ozzy Osboune, o público pode presenciar os shows das bandas Black Label Society e Korn. As duas bandas conseguiram levantar os presentes, e ao final das apresentações, um clima de ansiedade caiu sobre o estádio que, durante longos minutos, esperou apreensivo pela entrada da estrela da noite.

Antes de subir ao palco, Ozzy provocou o público dos bastidores ao gritar no microfone a melodia "Olê Olê Olê", que foi respondida prontamente pela platéia "Ozzy!, Ozzy!". Foi neste clima que o show começou, com um vídeo hilário satirizando algumas séries e filmes como "Lost", "A família Soprano" e "A Rainha", onde o músico incorporava alguns dos papéis principais.

Após a brincadeira, chegou a hora do show. Assim, o cantor britânico entrou no palco por volta das 22:00 e incendiou o público com "I don't wanna stop". A apresentação de 1 hora e 40 minutos foi baseada em quatro momentos de sua carreira: os discos "Blizzard of Ozz" (1980), "Bark at the moon" (1983), "No more tears" (1991), o mais recente "Black rain" (2007), além de clássicos do Black Sabbath.

Apesar de seus 59 anos de idade, o cantor mostrou vigor no palco e conseguiu dar conta do recado. Interagindo com a o público o tempo todo, ele fez questão de distribuir vários baldes d'água para os fãs que conseguiram ficar mais próximos do roqueiro.
O Show teve tudo o que podemos esperar de uma bela noite de Heavy Metal. Público alucinado, bandas tocando sem parar, guitarristas empolgados em solos e uma dose de insanidade do guitarrista Zakk Wylde, que cortou a mão durante o último show e continuou a tocar até o final, tingindo sua guitarra de vermelho, mas sem deixar o som parar.

Após clássicos como "No more tears", "Mr Crowley", "Mama, I'm coming home" e "Iron Man", Ozzy encerrou a noite com o clássico do Black Sabbath, "Paranoid". Quando o relógio batia meia noite, o cantor deixou o palco, apesar do público implorar por mais músicas. Ao final da apresentação, senti minha alma purificada e algumas dores no corpo. Afinal, não é sempre que se vai a um show, com quase cinco horas de puro rock. Fico com a sensação de dever cumprido, pois a volta do cantor para nova apresentação é uma incógnita, pois nunca se sabe o que ele poderá aprontar nos próximos anos e se sua saúde irá suportar novas turnês. O que seria uma pena para os fãs do rock clássico, que estão vendo seus ídolos sumindo aos poucos e sendo substituídos por astros artificiais criados pela mídia.

8.4.08

Caso Isabella Nardoni. Caso Isabella Nardoni? Caso Isabella Nardoni

por Ton Torres

Já temos mais um caso, mais um motivo para dar plantão por incessantes 24 horas sem sequer possuirmos informações novas. Já temos um novo Judas, um novo personagem pitoresco para massacrarmos. Quem massacra? A mídia massacra. Os brasileiros estúpidos massacram. Caso Isabella Nardoni. Só posso dizer uma coisa: isso não tá certo.

Eu sei que você esperava mais de mim. Eu sei que sou um palpiteiro bobalhão. Mas não agüento mais ouvir “caso Isabella Nardoni”. É angustiante ver como esse país apodrece no vandalismo. É aborrecedor ver como esse país se estatela em violência e caos. Não vou contar o que aconteceu no caso Isabella Nardoni. Afinal, aposto que a mídia democrática e direitista já fez o seu papel: mostrou-lhe os fatos baseados em argumentos concretos.

Não, a mídia democrática e direitista não fez isso. E pior, não fez isso mais uma vez. A imprensa brasileira está possivelmente caminhando mais uma vez pro lado errado. Sim, entre escolher o certo e escolher o errado, a imprensa brasileira sempre escolhe o errado. Julgamos como culpados o pai e a madrasta de Isabella. Não pensamos nos outros dois filhos. Não pensamos em sua família. Não pensamos em nada.

O mais fantasmagoricamente grotesco de tudo isso são os estupidamente folclóricos brasileiros. Sim, os mesmo brasileiros onde 50% da população não sabem identificar o próprio país no mapa. Sim, os mesmo brasileiros que formam a incrível massa de boçais que querem uma punição a pauladas e com muito sangue. São os indivíduos que vão para porta da delegacia gritar palavras de ordem do tipo “assassinos!”, ou então “vocês devem morrer!”.

Nossa boa e democrática imprensa direitista se pauta nesses indivíduos. É neles que sua programação é focada. É nesses boçais com delinquência acadêmica que boa parte dos programas é direcionada. A imprensa nacional caminha possivelmente para uma segunda versão do caso Escola Base, aquele em que quatro sócios foram acusados erroneamente por cometerem abusos sexuais nos alunos. Quem acusou? A polícia civil, a mesma que apura o caso Isabella Nardoni. Quem fez o julgamento? A imprensa, a mesma que apura freneticamente o caso Isabella Nardoni. Quem executou? A sociedade, a mesma sociedade primitiva e retrógada que pede a morte do pai e da madrasta de Isabella Nardoni.

Para quem ainda não se contenta com fatos meramente nacionais, podemos citar o caso Madeleine McCann, aquela menina britânica que desapareceu em Portugal no ano passado. Os pais de Isabella Nardoni podem cair na mesma cilada em que caíram os pais de Madeleine McCann. Os pais da menina britânica chegaram a serem acusados de envolvimento com o desaparecimento da filha. Recentemente, em uma atitude que possivelmente nunca veremos no Brasil, dois jornais ingleses foram obrigados a indenisar financeiramente o casal, e ainda tiveram que estampar em suas primeiras páginas o que seria em tradução livre algo como “nós pedimos desculpas”.

Quem sabe daqui alguns anos vamos estudar o caso Isabella Nardoni como “o que não deve ser feito no jornalismo parte dois”. Caso Isabella Nardoni. Caso Isabella Nardoni? Caso Isabella Nardoni. Se forem culpados, os pais de Isabella Nardoni certamente vão pagar. Se inocentes, não muda muita coisa, pois eles já estão pagando.

7.4.08

Dia do Jornalista

por Hugo Luz

Fui acordado no último sábado por uma ligação de uma colega de profissão, repórter de uma televisão regional. “Hugo, desculpe estar ligando cedo, mas preciso te perguntar uma coisa”. Não era tão cedo assim, mas ela estava na redação desde as sete da manhã. Eu estava dormindo ainda mesmo, disse a ela, mas meu celular ligado. Nunca desligo. Ossos do ofício, diriam....

Mais tarde estou sentado à frente do computador, escrevendo sobre os fatos surpreendentes que ocorreram naquele sábado. Uma chuva fina e fria caindo lá fora. Toca meu telefone mais uma vez. Desta vez uma colega de um jornal impresso. Seis da tarde de um sábado gélido. E mais um jornalista trabalhando.

As coisas não param de acontecer. Ninguém escolhe hora para morrer, para nascer, para um prédio cair. E a sociedade moderna tem como algumas de suas principais marcas a velocidade, a rapidez, a agilidade de transmissão de informação. Você já pensou que para assistir e se emocionar com as cenas trágicas da colisão do avião da TAM no aeroporto de Congonhas, ano passado, vários jornalistas foram mobilizados e estavam ali, suportando frio, chuva, tentando convencer os policiais e bombeiros de que também estavam fazendo seu trabalho? Tudo isso para você poder acompanhar aquilo em tempo real.

Lembro-me de Rubem Alves que comparava sua função, de repórter de jornal impresso, a de um padeiro. Dizia ele que o padeiro entregava o pão quentinho cedo na porta de sua casa e, para não atrapalhar as pessoas, tocava a campainha e gritava: “Não é ninguém, é o padeiro”.

Venho aqui hoje, dia 07 de abril, Dia do Jornalista, parabenizar todos estes profissionais, porque, acima de tudo, acho que são merecedores. Trabalham duro, alguns até dão suas vidas, para que a notícia chegue a todos os cantos do mundo. Trabalham muito e muitas vezes também, “não são ninguém”. Um jornalista está 100% de seu tempo trabalhando. Sabemos que a vida não é fácil, mas saibamos que nossa profissão, mesmo que nem sempre reconhecida, é de grande importância e tenhamos força para continuar, mesmo quando a vontade é de deixar para lá.

Parabéns a todos e força!

6.4.08

De Cat Power a Noel Rosa

por Beatriz Ramos

Em toda minha vida, uma coisa que sempre quis aprender foi bailar. Bailar em um palco belamente e incessantemente. Dançando sem parar, tango, salsa ou lambada – a dança proibida. Por isso, depois de anos e anos adiando, resolvi realizar meu sonho de infância: entrar para aula de Dança de Salão.

Como de costume, tudo bem com vocês? Comigo não muito, mas a vida é curta e o sol nasce amanhã as seis, então vamos ao que interessa. Primeiro dia de aula. Não tem homem no curso, são todas meninas, mulheres, senhoras idosas. No primeiro instante me senti uma extraterrestre por não fazer parte do grupinho. Sempre quis fazer parte de algum grupinho, o das meninas mais bonitas, ou o das meninas com o cabelo bonito e longo, ou até o das meninas bonitas burras. Mas a vida é injusta e não tive essa “oportunidade”, então me recolhi ao grupinho dos amigos estranhos, feios, mas que pensam alguma coisa.

Voltando a dança, me senti um ET. Primeiro, todas as moçoilas foram de salta alto, saia rodada, aquela saia que com um simples giro revela tudo. Eu fui de tênis e calça jeans, uma jeca. Mas era o primeiro dia, o que podia acontecer de errado? Tudo. Descobri que é difícil dançar com gente alta, salvo no caso essa pessoa alta for um homem, aí não existe problema algum. Mas como não sou homem, não dancei com ninguém. Moças gostam de ser conduzidas e eu não sou homem, ainda não sei dançar, consequentemente, não sei conduzir uma dama.

Por fim, acabei dançando com a professora, a Iraci, uma jovem senhora de cinqüenta e poucos anos, com postura bonita, anda na ponta dos dedos e usa um coque com uma flor vermelha no topo da cabeça. É muito bonita, espero ser assim quando envelhecer. O mais legal da dança de salão são as músicas, eu saio de casa ouvindo Korn, System of a down ou, às vezes, nos dias de depressão, Cat Power, Patrick Watson, coisas do tipo. Então, chego a um ambiente desconhecido, à meia luz, cheio de mulher e escuto Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Francisco Alves e Demônios da Garoa. Poderia reclamar e quebrar todos os Cds da Tia Iraci, mas não posso, por que é tudo muito interessante. Mesmo dançando sozinha, aquelas músicas dão o clima de dança de salão.

Semana que vem começo a freqüentar a CAAP (Centro de Apoio ao Aposentado). Tudo bem, eu tenho um fraco por jovens homens de setenta e oitenta anos, mas o meu intuito nesse lugar não é o de paquerar, que fique bem claro, mas sim o de aprender a dançar com homens experientes. A fama desse Centro, em Cruzeiro, cidade abandonada em que vivo, é grande. Lá eu poderei dançar tango, salsa e, exclusivamente, lambada – a dança proibida. Para quem acha que essa coisa de dança de salão é bobeira ou moda de velho, confira o filme nacional “Chega de Saudade”. Na minha cidade maravilhosa a estréia está prevista para o ano que vem, por isso vou continuar dançando o “Tchá, Tchá, Tchá”, até o filme começar. Quem sabe até lá não serei um pé de valsa, todos vão querer dançar comigo e serei uma sensação na lambada – a dança proibida. Boa noite para vocês também.